Várias pessoas afirmam que entre a Igreja de Sousela e as Capelas de Nossa Senhora da Piedade, muito antes de existir o cemitério, existia nesta freguesia uma “bela e vistosa via-sacra com cruzeiros”. Iam da igreja, passavam pela rua do Calvário e terminava nas Capelas de Nossa Senhora da Piedade.
A via-sacra, segundo a Bíblia, simboliza o percurso que Jesus fez até ao calvário, onde foi crucificado. Nessa “via-sacra” existem 14 estações, onde cada uma relata um episódio da penitência de Jesus. Por alturas da Páscoa, em algumas terras do país, costuma-se fazer uma representação religiosa com pessoas a recriarem a história do percurso de Jesus até ao monte do calvário.
Ora em Sousela, não se sabe ao certo quantos cruzeiros existiam, umas pessoas dizem que teria 7 cruzeiros, outras pessoas referem menos, outras tantas referem que teria tantos cruzeiros quantas as estações referidas na bíblia... Durante a investigação deste assunto demos logo conta que apenas o cruzeiro que está na rua da Piedade se encontra em perfeito estado de conservação. Este cruzeiro data de 1722, na base tem escrito “ ESTA CRUX HE DE SEMIAM (Simão?) ERA 1722”, tem uma coluna vertical simples sem qualquer tipo de ornamentação, e tem um braço horizontal com dois símbolos: umas turquesas e uma escada (provavelmente simboliza a ferramenta para tirarem os pregos e para subirem ao crucifixo buscar Jesus). As turquesas podem também simbolizar a tenaz ligada ao sofrimento da virgem Águeda. Deste cruzeiro várias pessoas dizem que foi movido cá para cima aquando do alargamento e construção da calçada da rua da Piedade.
Como as capelas da Nossa Senhora da Piedade remontam à mesma época deste cruzeiro (1722) e como dentro delas existem também duas cruzes muito idênticas à que referimos anteriormente, podemos constatar que fazem parte do mesmo percurso da Via-Sacra e que, desta forma, temos então atualmente a presença de três cruzeiros representativos das estações em perfeito estado de conservação.
Poderíamos terminar este assunto por aqui, mas a investigação e as memórias do povo fizeram vasculhar mais além e ir à procura de mais cruzeiros. O Senhor Manuel Morais, o Senhor Firmino Moreira e outros tantos habitantes da Freguesia de Sousela afirmaram que “se lembram muito bem que antes de existirem os prédios da Rua do Calvário, pelo menos três cruzeiros existiam ali, com as colunas e os braços talhados com padrões característicos dos cruzeiros e com letras e números nas bases que suportavam as mesmas cruzes de pedra”. Onde foram parar ninguém soube dizer! Afirmam ainda que perderam “o rasto destas cruzes após a altura do Padre Milheiros”.
… Eis que, por crer ou sem isso, enquanto se realizavam investigações patrimoniais, foi encontrado um pedaço de coluna de um cruzeiro dentro do cemitério que serve de base para pousar os baldes enquanto se enche de água, vinda de uma torneira junto à entrada principal do cemitério. Tem data de 1723 e tem um padrão talhado na pedra com umas formas geométricas simples tipo losango. Trata-se sem dúvida de um pedaço de cruzeiro.
Encontramos mais um vestígio de um cruzeiro no muro do adro da Igreja, é visível através da parte interior do muro. Está aqui reaproveitado, depositado na horizontal a uns 30cm do chão. São visíveis as formas geométricas típicas dos cruzeiros e respeitam as medidas de largura dos outros cruzeiros. Não se sabe se é parte da coluna ou do braço, não tem data marcada mas sem dúvida que se trata de uma parte de um cruzeiro da Via-Sacra que outrora existiu nesta freguesia.
Até ao momento não foram encontrados mais vestígios destes cruzeiros, desta forma não fechamos nem damos por concluído este assunto.
(DPPL-Sousela, da Junta de Freguesia de Sousela - 2013/14)